Pesadelo dos golpistas é o dia seguinte ao impeachment de Dilma

Os golpistas sabem que o impeachment de Dilma seria um caminho sem volta e de alto risco. Mesmo que obtenha sucesso, tem tudo para dar errado: gerar enorme resistência política, social e internacional, unir os democratas, convulsionar o país e impulsionar a radicalização das propostas da esquerda. Vão arriscar?

A oposição brasileira vislumbra alguns caminhos – toscos, artificiais, frágeis, em suma, golpistas – para tentar realizar o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Um impeachment forçado, meramente político, sem base legal. Ou seja, um golpe de estado.

Há um processo no TSE – Tribunal Superior Eleitoral -, aberto a pedido do PSDB, e há um certo “julgamento das pedaladas” pelo TCU – Tribunal de Contas da União – que o primeiro governo Dilma teria praticado. Na realidade, o mesmo procedimento feito pelos antecessores Fernando Henrique Cardoso e Lula, então aprovados pelo TCU.

Em todos os casos, até agora, nota-se o desejo forçado de operar um golpe de estado, ou seja, de derrubar o resultado das urnas em 2014.

MODELO CLÁSSICO DE GOLPE FALIU NA VENEZUELA EM 2002

É sabido que a receita de golpe de estado hoje, pelo menos na América Latina, não é mais a quartelada.

A última tentativa de golpe militar clássico – implementado pelo Exército e com apoio americano – se deu na Venezuela em abril de 2002. O resultado foi um humilhante fracasso. Durou apenas 47 horas. Praticamente todos os países da América Latina repudiaram o golpe, que ficou internacionalmente isolado, e internamente o povo reagiu, foi às ruas e trouxe o presidente Hugo Chávez de volta ao poder.

A partir dali, os golpes políticos que pretendem subverter os resultados eleitorais buscaram outros contornos, outro “caráter”. Não mais militar, mas jurídico e parlamentar.

EXPERIÊNCIAS DO “NOVO GOLPISMO”

Em 2009, o golpe contra o presidente eleito de Honduras, Manuel Zelaya, na manhã de 28 de junho, teve a participação do Exército, que foi prendê-lo em cumprimento a um mandado emitido pelo Poder Judiciário. Ainda sem entender as sutilezas do novo “método”, os militares hondurenhos enfiaram os pés pelas mãos e deportaram o presidente deposto, o que é proibido pela Constituição Hondurenha. Até a ONU denunciou o episódio como “golpe de estado”.

Já em 2012, foi a vez da “experiência paraguaia”, com a deposição golpista de Fernando Lugo da presidência do Paraguai. Lá, a direita oligárquica optou pela via parlamentar, com o beneplácito do judiciário.

No dia 22 de junho, o presidente eleito foi destituído pela Câmara dos Senadores do Paraguai por 39 votos a 4 e, na mesma noite, o vice-presidente Federico Franco empossado como novo presidente da República do Paraguai.

O processo de impeachment de Lugo durou pouco mais de 24 horas. Um escândalo. Apesar disso, foi considerado legítimo pelo Tribunal Superior Eleitoral do país, mas ilegal e ilegítimo pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

A extrema rapidez do julgamento, a falta de concretude das acusações e o tempo de defesa oferecido a Fernando Lugo, de apenas duas horas, escancararam o caráter golpista daquele impeachment.

Honduras e Paraguai são países de pequeno território. Os golpes de estado adotados nesses países foram, certamente, ensaios, laboratórios para ambições maiores.

Dilma-fica

OS GRANDES RISCOS DE SE TENTAR APEQUENAR O BRASIL

Porém, em relação ao Brasil, há algumas questões não respondidas pelos teóricos desse golpismo que se pretende “disfarçado”.

A primeira e crucial é: vale a pena arriscar?

Pelos montantes envolvidos – só o pré-sal no Brasil é estimado em 8 trilhões e 800 bilhões de dólares – o primeiro pensamento dos golpistas (cujos líderes são fundamentalmente entreguistas e corruptos) é: “vale a pena arriscar sim! vale sim!

Ocorre que no Brasil, um país desse tamanho e com esse peso no mundo, tentar reverter o resultado das urnas na “mão grande” é muito mais que temerário. É o anúncio de um desastre de consequências imprevisíveis.

Basta ver:

  1. Dilma não é Collor. Enquanto Collor não tinha um partido forte por trás, Dilma tem o PT, partido de militância histórica com 1,6 milhão de filiados, cinco governadores, 14 senadores, 66 deputados federais, 90 deputados estaduais, 619 prefeitos e milhares de vereadores espalhados pelo país. E para quem acha que o PT está em baixa, veja esta notícia do insuspeito Estadão.
  2. Além do PT, outros partidos que têm militância também se insurgiriam contra o golpe, como PDT, PCdoB e PSB, entre outros.
  3. Parte importante dos filiados e simpatizantes do PT e da esquerda são militantes de organizações sociais, como sindicatos, movimentos de sem-terra, Contag, Fetags, UNE, associações de moradores e de favelas, etc. A resistência ao golpe teria enorme capilaridade na sociedade.
  4. Intelectuais e artistas de peso também condenariam o golpe.
  5. Vários países da América Latina e do mundo se manifestariam em repúdio ao golpismo e em defesa da ordem democrática no Brasil. Os BRICS e instâncias internacionais como a OEA não deixariam de se posicionar.
  6. Lula lideraria a denúncia do golpe interna e internacionalmente, tornando a vida dos golpistas bastante difícil, despontando como líder e candidato natural.
  7. Se hoje, no governo Dilma, já são inúmeras as greves de servidores públicos e universidades por melhores salários e condições de trabalho, num governo golpista e conservador, as greves seriam potencializadas e estaria bastante facilitada a realização de uma greve geral no país.
  8. Não é demais lembrar que o impeachment, se ocorresse, seria decidido por um Congresso Nacional sob suspeita, comandado por políticos denunciados e investigados por corrupção na operação Lava Jato. Além disso, um Congresso conservador que tem remado em sentido contrário à sociedade, como no caso da Câmara presidida por Eduardo Cunha (sucessor de Dilma em caso de impugnação da chapa Dilma-Temer pelo TSE), que defendeu a continuidade do financiamento empresarial nas campanhas políticas.

O problema dos golpistas em enfrentar toda essa resistência é o de assumir a responsabilidade por radicalizar a sociedade, por decidir, em nome de seus interesses mesquinhos, esgarçar o tecido social e político.

As consequências podem ser terríveis.

Basta lembrar o quanto saíram desmoralizados certos golpistas na Venezuela após o fracasso do golpe de 2002.

A REAÇÃO AO GOLPE COLOCARIA NA ORDEM
DO DIA UMA PAUTA MAIS À ESQUERDA

Por outro lado, radicalizar com um impeachment golpista terá como efeito colateral impulsionar a união e o fortalecimento de todo este conjunto de forças democráticas, que seria polarizado pela esquerda “atingida” pelo golpe.

O alto nível de conciliação que hoje vigora entre o PT e o capital financeiro – para a desgraça do Brasil – e o medo que o PT ainda tem da mídia (vale dizer, da Globo) iriam para o espaço no caso de um golpe contra o governo de Dilma.

Seja porque os petistas conciliadores se sentiriam traídos e colocariam a boca no mundo, seja porque, num ambiente de radicalização, estes setores mais moderados do PT perderiam o protagonismo diante dos fatos políticos, agora necessariamente estrelados pelos mais combativos.

Em suma, o risco de tentar apequenar um gigante como o Brasil é o de dar errado e os golpistas acabarem revelados, diante do país, em sua própria pequenez.

E, neste caso, de que um gesto radical à direita acabe abrindo as comportas para que as pautas realmente de esquerda – auditoria da dívida pública brasileira, fim da submissão ao rentismo, reforma política popular, democratização da comunicação, regulação econômica da mídia, reforma agrária, soberania nacional – se imponha na sociedade, com amplo apoio, como verdadeiro caminho para as mudanças.

Os golpistas sabem que o golpe – ou mesmo sua mera tentativa – é um caminho sem volta.

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