Para Cora Rónai, “loura de olho azul” não pode optar por identidade negra

Cora-Dolezal

Em sua coluna no O Globo desta quinta-feira, 18 de junho, a jornalista Cora Rónai desanca a americana Rachel Dolezal. Seu “pecado”: sendo visualmente loura, de olhos claros, resolveu optar por uma identidade cultural negra. Imperdoável, não é Cora Rónai?

Cora Rónai começa sua coluna taxando como “um dos casos mais esquisitos” o de Rachel Dolezal, que militou em causas negras nos EUA, chegando a presidir uma seção regional da NAACP – Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor. Informa a colunista que, segundo os pais de Dolezal, ela tem origens que misturam sangue alemão, tcheco, sueco, “com umas vagas pitadinhas de sangue indígena”.

Rachel Dolezal teve quatro irmãos negros, adotados pelos pais. A certa altura da vida, identificou-se com a negritude. Para Cora Rónai, porém, isso é inaceitável. Num trecho do artigo ela diz:

“Ninguém teria prestado a menor atenção se ela fosse negra e tentasse viver como branca; tentar fugir do preconceito e da discriminação de que os negros são vítimas constantes é uma atitude perfeitamente compreensível. Mas fazer o caminho inverso? Por quê? Para quê?”

“Tenho muita pena de Rachel Dolezal”, afirma Cora, antes de chamá-la de “mentirosa compulsiva” e de dizer que ela viveria uma “crise de identidade” de grandes proporções.

A americana, no entanto, respondeu bem às indagações da mídia de seu país. Perguntada como seus dois filhos – negros – a identificam, respondeu: “Conversei com um deles sobre isso e ele me disse que sou culturalmente negra e racialmente humana”.

Dolezal

INCOERÊNCIA

Chama a atenção a incoerência da mídia, aqui e lá. Alguém nascido do sexo masculino pode – e é respeitado nisso – optar por uma identidade feminina. Está aí o caso do grande cartunista Laerte Coutinho que, depois de ter sido casado e pai de dois filhos, optou a certa altura da vida em assumir uma identidade feminina. Ninguém o chama de “mentiroso” ou com “crise de identidade” por conta disso. Respeita-se. O dado biológico não é o principal, mas sim a identificação e a opção da pessoa.

Já no caso de Rachel Dolezal, a mídia se escandaliza e condena. E o faz porque sua opção é incompreensível para certa elite, que se julga a natural detentora dos privilégios nesse mundo.

Afinal… “Por quê? Para quê?” – não é Cora Rónai?

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