Jovens na periferia encenam “O Alienista” e mostram “maioridade mental” frente aos deputados

“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”, ensinou o grande escritor russo Leon Tolstoi. Aqui, um relato local que expressa com fidelidade o abismo entre a arte de jovens da periferia e o descaso, quando não o ódio, que eles recebem dos poderes públicos.

A sábia frase de Tolstoi é exatamente o sentimento que temos ao ler o artigo da professora Helene Camille sobre o trabalho cultural empreendido por jovens de uma escola pública estadual no bairro do Paraíso, em São Gonçalo, periferia da região metropolitana do Rio de Janeiro.

Os jovens se afirmam, produzindo arte e cultura, e se expressam debatendo a “loucura” a partir da montagem de uma peça baseada em “O Alienista”, de Machado de Assis. Apoio governamental? Nenhum. Financiam-se cobrando ingressos a R$ 3.

Juventude carente que produz arte, na contramão de deputados, governos e ódios deturpados e mal conduzidos. Para esses, a rapaziada manda o seu recado: afinal, quem são os loucos?

Leia o artigo.

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UM ESPETÁCULO, “O ALIENISTA”

Por Helene Camille

Desde o dia 3 de julho último, após assistir ao espetáculo teatral “O Alienista”, produzido pelos alunos do Colégio Estadual Walter Orlandini (CEWO) e coordenado pelo professor Fernando Mattos, sinto que o ranço deixado em mim pela famigerada aprovação da redução da maioridade penal pela câmara dos deputados no Brasil (faço questão que o nome seja escrito em minúscula) se dissipou um pouquinho.

Porque ver o trabalho do professor dar tão bons frutos, testemunhar o talento desses jovens, ouvir o relato do Fernando sobre o empenho de seus alunos em produzir o espetáculo é, sem sombra de dúvida, alimento que fomenta em minha alma a esperança de um mundo melhor.

Um mundo em que jovens estejam nas mãos de profissionais sérios e interessados na formação de um ser humano consciente de sua humanidade e não nas mãos de políticos desumanos que lhes aniquilam o futuro e ainda os acusam como culpados diretos de suas desgraças. Vivemos em um país em que uma horda de parlamentares covardes usa jovens como bodes expiatórios para se manter no poder e se beneficiar a todo custo.

Mas esqueçamos esses dissabores políticos e falemos um pouco sobre o talento desses alunos do CEWO. Não sou crítica de arte, mas nem por isso vou me privar de dar meus pitacos sobre o trabalho de meu colega de profissão, professor Fernando Mattos.

(Clique aqui e ouça a narração integral de “O Alienista”)

O elenco do espetáculo é formado por quatro alunos e dois ex-alunos do CEWO: Michael Alves (ator, diretor, figurinista e preparador corporal), Lorena Araújo (atriz), Érika Mello (atriz), Larissa Lopes (atriz), Yuri Ataliba (atriz), Jhenifer Lima (atriz) e Lucas Portugal (contrarregra).

Primeiro quero ressaltar que o texto escolhido, “O Alienista” de Machado de Assis, é, no mínimo, uma ousadia. O requinte da direção de Michael Alves é um “abuso”. A adaptação feita por Michael também foi um salto astronômico, dado o contexto escolar e a sua formação ainda em andamento. A linguagem preservada do texto, na boca do elenco, é uma interação temporal maravilhosa de se ouvir. A preparação vocal, como bem ressaltou a professora Ana Paula, é excelente.

Equipe-600

O trabalho corporal dos atores e atrizes é muito bom. Tão bom que preenchem o palco sem que o espectador se dê conta de que não há cenário. Seis artistas se revezam entre os diversos personagens do conto e nos conduzem através de uma narrativa especialmente densa sobre a loucura, mas que flui sem dificuldade alguma.

O bate-papo com o público após a apresentação foi super bacana, pois esclareceu muitas coisas sobre o processo da montagem do espetáculo. O figurino, por exemplo, foi criado pelo multifacetário Michael. Segundo ele, o tema sobre a loucura é sempre representado em ambiente e com vestimentas brancas – e ele não queria que o figurino do espetáculo fosse assim. Queria algo colorido e vibrante.

É claro que automaticamente lembrei de Nise da Silveira com seus pacientes e mandalas, bem como os gatinhos a transitarem livres na clínica. Essa psiquiatra ofereceu a seus internos um ambiente colorido e aconchegante e não um espaço estéril, antisséptico que, em vez de curar, deve angustiar ainda mais. A loucura é um tema extremamente caro à psicologia e à filosofia também.

Machado de Assis foi um grande observador da natureza humana. O conto “O Alienista” traz uma temática perfeita para refletirmos sobre “a tal normalidade” em nossa sociedade. E só em pensar nessa loucura, que é a tentativa patética de nos adequarmos a uma “normalidade” ditada pelas sociedades, transcendi milênios e pousei nos cultos a Dionísio, Deus que representava a desmedida, que era permitida ao povo num espaço de tempo limitado para que pudesse se livrar do comedido, da prudência, ou seja, permitir-se enlouquecer para equilibrar o cotidiano e não enlouquecer de vez.

Adoraria ver a sociedade vociferar a favor desses jovens

Quanto à produção, vejamos os incentivos estatais, governamentais e outros “tais”: NENHUM. A verba vem das apresentações a preço módico de R$ 3,00 e da venda de rifas. Inscreveram o espetáculo em três festivais. Foram classificados no festival de Duque de Caxias (baixada fluminense), se apresentarão no dia 1º de agosto e estão aguardando a resposta dos outros dois.

O envolvimento deles é impressionante. Preocuparam-se em pesquisar o tema, o vocabulário. Ensaiam exaustivamente. Seus colegas ajudam o máximo que podem. Presenciei alguns deles na recepção, na contrarregra, na fotografia, entre outras funções. Há um companheirismo, uma solidariedade entre eles, que me deixou comovida.

O mundo desses alunos com certeza se alargou e muito. Aprenderam a se disciplinar, a se esmerar o máximo possível naquilo que se predispuseram a fazer. Enfim, adoraria ver a sociedade vociferar a favor desses jovens. Porém, o que sempre percebo é o silêncio, é a falta de encorajamento, é a descrença. Contudo, o pior mesmo é testemunhar a indiferença pelo futuro dos jovens das classes sociais menos favorecidas.

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Helene Camille nasceu no povoado Braga de Cima, no Estado da Paraíba, e é formada em Filosofia pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

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