Crime de lesa-pátria: paralisação do Comperj causa prejuízo maior que a corrupção

Nas investigações da operação Lava-Jato, o Ministério Público Federal estima que o prejuízo à Petrobras foi da ordem de R$ 2,1 bilhões. Já a estatal, no balanço de 2014, mensurou em R$ 6,1 bilhões o possível rombo com a corrupção. Todos estes números, porém, ficam bem abaixo do montante que está sendo “jogado no lixo” com a paralisação das obras do Comperj – o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, em Itaboraí. Já foram investidos US$ 13 bilhões (R$ 40,7 bilhões), dos quais pelo menos R$ 15 bi em equipamentos de ponta que, se abandonados, ficarão inutilizados para sempre. Em documento encaminhado ao TCU no ano passado, a própria estatal admite um prejuízo mínimo de US$ 14,3 bilhões (R$ 44,8 bilhões) aos cofres da companhia, muito disso por conta dos “investimentos feitos que não podem ser recuperados”. Ou seja, a paralisação do Comperj já foi mais danosa do que a própria corrupção. Faltou bom-senso à Lava-Jato e ao juiz Moro? À nova direção da Petrobras? A quem punir por este crime?

Comperj-Destacada

Da Redação

A gigantesca obra no município de Itaboraí, interior do Estado do Rio, contava com a participação de todas as grandes empreiteiras nacionais, num total de 16 construtoras. A confissão do ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, de que havia comissões de 3% nos contratos, levou a empresa a suspender as obras, causando a demissão de mais de 30 mil operários e técnicos especializados.

Quadro-1-FotoAgora, são os próprios trabalhadores demitidos com a paralisação das obras do Comperj que denunciam a perversa lógica implantada na Petrobras após a Lava-Jato. Dos 35 mil empregos diretos antes gerados na obra, restam hoje menos de 2 mil em operação. Os custos sociais e econômicos dessa paralisação têm sido avassaladores sobre a vida desses trabalhadores, do município e até do estado. Mas há um custo ainda mais assustador: a possibilidade de perda total de pelo menos R$ 15 bilhões já investidos em equipamentos de ponta.

– Estes equipamentos necessitam de um plano de preservação de tecnologia de ponta ou sofrerão processos de corrosão que os inutilizará totalmente. Quase todos sofrem processo corrosivo se não estão protegidos contra as intempéries através de um trabalho regular e especializado de manutenção – revela Luiz Alberto Silva, supervisor de Mecânica, dispensado do Comperj em maio de 2015, que hoje lidera um movimento dos trabalhadores em defesa da retomada das obras do Comperj.

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Luiz Alberto lidera movimento pela retomada das obras do Comperj e Angra III

Trabalhadores mobilizados

Para tentar sensibilizar o Governo Federal que, além de maior acionista da Petrobras, é o responsável por dirigir a política de desenvolvimento nacional, os trabalhadores que atuaram no Comperj estão se mobilizando. O grupo no WhatsApp já conta com centenas de operários, há uma página no Facebook e duas petições (uma no Avaaz e outra no SOSVox) que colhem assinaturas pedindo a retomada das obras, tanto no Comperj quanto em Angra III.

– Lutamos pelo emprego, mas não só. Defender o Comperj é o melhor para o Brasil. A sociedade não pode pagar pela corrupção um preço ainda maior do que o desviado. Não tem sentido. Cabe à Petrobras limpar os contratos, recalcular para reduzir seus custos, exigir contrapartida das empresas pegas em desvios e concluir as obras, para o bem da economia da região e do país – defende Luiz Alberto Silva.

Precisamos do Comperj

Para se ter uma ideia comparativa, o Brasil gastou R$ 28 bi para realizar a Copa de Mundo de Futebol em 2014 e gastará R$ 39 bi com as Olimpíadas do Rio este ano. Investir em refinarias, no entanto, é essencial. O Brasil precisa de refinarias para se tornar autossuficiente em combustíveis, como o dieesel. Sem isso, o país fica vulnerável em sua soberania. Depender da importação de dieesel, por exemplo, significa dizer que decisões de outros países podem paralisar o transporte essencial de produtos agrícolas e outros, majoritariamente feito por caminhões no Brasil.

“A necessidade de se construir refinarias no país é absoluta, porque estamos importando a peso de ouro os derivados”, disse o professor da Coppe/UFRJ, Luiz Pinguelli Rosa. “O Brasil precisa de refinarias, porque nós ficamos atrasados na área de refino. E para tirar este atraso conta principalmente com a refinaria do Comperj”, enfatizou.

Em amarelo, os municípios diretamente beneficiados pelo Comperj. Em azul, municípios que também sofrerão reflexos positivos.

Em amarelo, os municípios diretamente beneficiados pelo Comperj. Em azul, municípios que também sofrerão reflexos positivos.

Concluir e colocar o Comperj em operação significaria retomar, não só a geração de empregos na região (200 mil empregos diretos e indiretos, segundo as estimativas oficiais), mas também a geração de tributos e desenvolvimento. A arrecadação tributária de Itaboraí durante as obras estava na casa dos R$ 32 milhões. Caiu para R$ 10 milhões atualmente, com o Comperj desativado. Veja embaixo um vídeo da TV Folha sobre o drama local.

Segundo estudos da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), o Comperj funcionando aumentará em R$ 10 bilhões o Produto Interno Bruto (PIB) do Estado do Rio. Neste cálculo está incluída a geração de lucros e tributos com a produção e o refino de 150 mil barris de petróleo por dia, que seria viabilizado já na primeira fase do projeto.

A Petrobras, por sua vez, previa que cerca de 200 empresas de transformação investiriam US$ 200 milhões, gerando quatro mil empregos após a instalação do Pólo Petroquímico. A expectativa é a geração de 212 mil empregos diretos, indiretos e pela via da geração de renda local.

– Esse é o papel histórico da Petrobras, indutora do desenvolvimento nacional, privilegiando a nossa tecnologia, a nossa mão-de-obra e o conteúdo nacional de suas contratações e aquisições. Quem tem que pagar por corrupção é o corrupto e o dirigente corruptor. Não as empresas, nem os trabalhadores e muito menos o povo brasileiro – conclui Luiz Alberto Silva.

Tragédia em Itaboraí

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